segunda-feira, 26 de junho de 2006

O Carregador de Almas

 


 


 


 


Na madrugada surgiu um sujeito sem parecer interessado em nada. Surgiu como se a madrugada fosse apenas o pano de fundo de mais um dia sem história. Apenas um pesadelo seria mais real do que um exilado com a Lua criminosamente bela ao fundo.


Os camponeses levantavam-se sem poder adivinhar as leviandades cometidas por aspirantes a políticos, na ascensão à glória, e caminhavam sonâmbulos sem futuro. Lá longe; as nuvens agoniavam o Sol.


Sem destino que se adivinhasse, um homem tragava os primeiros raios da alvorada em transe, os destinos da vagabundagem sem fim e os sorrisos da pureza dos princípios da crueldade.


Uma certeza de exilado guia as estrelas quando as ciladas nos envolvem os cabelos desmaiados, e as confissões que outrora sabíamos brotar das consciências geniais e absolutas.


Mordiscava a relva ao passar, envolvido em vento, pelas nodosas experiências das madrugadas sem fim. Aos seus olhos, a vida não era senão um sapato calçado ao acaso, sem cor definida. Filosofava por entre os escombros da espiritualidade, enquanto pensava que nada era sempre nada, mesmo quando a alma se passeava nos recantos mais violentos da escuridão.


Mas uma manhã não é só um sujeito a deambular pelos agrestes caminhos da solidão. É, também, o movimento que exala das flores na orla da cidade.


Àquela hora os transeuntes deixavam uns rastos elipsóides nos paralelepípedos das avenidas, dirigindo-se absortos para a tortura do emprego subsistente. Os bancos-de-jardim-sem-lugar-sentado, pediam perdão pela dureza da noite, aos sem código da maresia, que esperavam a madrugada, para esquecer que a loucura é um precipício de prazer entre os lugares comuns da burguesia envolvente.


Quando a solidão se sente saciada, os parâmetros vitais proclamam a vitória sobre a ignorância e atiram-se, ciosamente, contra a contestação que grassa nas mentes exiladas.


Para não morrer, o melhor é esquecer a repugnância que os anjos projectam e saltar até que as pernas se verguem ao cansaço e os tecidos obscuros da alma rejeitem a compaixão que sufoca, quando é chegado o fim da cruzada contra a imbecilidade.


A destreza com que os burgueses se enganam a si próprios, em nome da ciência, que os impede de viver como os génios, comove. Os defeitos das sombras inquietas parecem empecilhos na longa caminhada para a mentira, esse estado em que a arte parece estagnar por satisfeita e que, sem explicação, apaixona os artistas verdadeiros.


Para lá do medo os camponeses inventam o mundo carregando almas múltiplas num só corpo.


Um sujeito, que transporta a lama pesada e incerta do devir, envolve, carinhosamente, a alma de seu pai, que deixara o  corpo exausto na calçada imprópria da vida. 

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