quinta-feira, 11 de maio de 2006

O Fogo da Salvacão

 Aquele cão baixinho seguiu-me outra vez. Sinto que todas as minhas fobias ganham coragem para me arruinar. Depois da esquina, quando ele sorriu com dentes de cão intelectual, pensei chegado o fim. Ali, onde se cruzam as paredes de duas ruas solitárias, encomendo a minha alma ao Criador. Se ao menos passasse o vizinho do talho com os ossos do ofício do costume ...

Foi então que resolvi suborná-lo. Lati-lhe baixinho como que a confessar uma amizade passada e esquecida. Abanou a cauda, como se a mentira lhe tivesse roido os testículos, e riu com os dentes ironicamente húmidos.


Pediu-me um cigarro e apoiou-se nas patas traseiras. Nervosamente retirei um cigarro da camisa e estendi-lho. Fogo! Ladrou espetando o cigarro no incisivo raivoso.


Salvo, estava salvo! Nenhum dos dois tinha lumes e ele entrou na tabacaria para comprar fósforos.


Reassumi a compostura e lá fui assobiando rua acima.

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