quarta-feira, 15 de setembro de 2021

a dor dos náufragos


Se as portas se abrissem no instante

Em que a luz se desprende do teu olhar,

A delicadeza dos navios juncando a tarde,

Envoltos na espuma cruel das noites,

Seria um sopro de desespero rasgando

O teu corpo. Os rostos parecem tombar

Na frieza sombria que te sufoca as mãos.

As mãos esguias que desenham marés

Nos lábios entreabertos, nas inquietas faces

Desocultando as rugosas cicatrizes em fogo.

Se as portas se abrissem revelando as entranhas

Dos peixes, saberíamos dizer que o sonho

Representa a linguagem dos corpos

Deslizando no nojo da ausência. Nos segredos

Da crua imagem que revelas, reproduzem-se,

No seu fragor lento, os lugares inapropriados

De antanho. As luzes emergem do tempo sacralizando

O fim das tempestades, o assentar do pó que oculta

As chagas da noite vazia, o rumor penetrando

A sageza dos marinheiros, o estertor das águas

Perpetuando a dor dos náufragos nos lugares

Da dor fingida. No lugar das mágoas de pedra,

Das verdades ensanguentadas, covil do amor

Sem desejo e do corpo ausente e oco.



Se as portas revelassem o dentro dos entes

Ocultos no interior da tua solidão, seria aí

Que o renascer do medo estaria sedimentado em nós.

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