quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Façam-se trevas por agora

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Talvez a morte nos traga a paz.


Talvez o que parece calma e pousio


Seja apenas uma tempestade passageira


Não sentida pelos outros.


- Eu sou um cadáver abandonado e triste,


Poderia ser o que depois da vida


Traz severidade no trato e frigidez


ao desprezível que pode emergir da sabedoria.


- Não me abandonem, que sou triste e renuncio à catástrofe


Dos dias de antanho, sinto ainda a alma


Presa aos ganchos aguçados da carne,


Do corpo devoluto, o palpitar insuportável


Que se anuncia sem clamor. Levem-me a ver o mar,


A esquecer o olhar sem brilho, sem vida


Da horizontalidade sem fim. Não me abandonem


À cova do devir. Eu serei a vida que se transforma


E ilumina as trevas.


 


Monte Gordo, 18/1/2021 (segundo ano da peste)

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