terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Da soberania da Multidão

Há que destacar; e só quem não tem competências para desocultar o que está por detrás do que ocorre na sombra da memória o poderá pôr em causa; as consequências brutais do teu gesto. Não será nunca desprezível o elenco de citações que podem interpretar e avaliar a brutalidade da ação.
Eu que conheço a imprevisibilidade do comportamento humano, que aprecio a diversidade e até comungo contigo o prazer da mudança, não sei como a magia dos princípios pode canibalizar o estertor do fim. No meu caso, é a mudança exterior ao pensamento que me habita o cinzel transformador da alma.
Quando vieste até mim, percorrendo o caminho insensato dos sentimentos de antanho, irradiando clareza na confusão inata da nossa vida, reconheci de imediato que nunca tinha sido a ausência a explicação da separação. A proximidade física é uma fonte de mal entendidos. A lonjura atómica potencia a exaltação dos afectos incorruptíveis. Não há distância na solidão. Nem solidão absoluta na imensidão das terras habitadas pela criação cultural.
O teu gesto, que emergiu na noite, é uma aclamação silenciosa e triste. Um salto na vacuidade do sonho, na cumplicidade da mecânica amorosa adjacente.
Sabes o que convoca a dor e almeja a sabedoria, a sabedoria dos relapsos altruístas. Sabes onde a lança penetra as fragilidades da alma. Onde se alojam os trovadores da realidade inatingível, os que conhecem os limites insondáveis do efémero retorno.
Quando o desejo é concorrente doutro querer, rejeitado pelo corpo carente, o parecer favorável da multidão é soberano e requer a impossibilidade do despojo total.
O gesto que ostentas perante a minha inquietude não inscreve a violência que transporta, na carne devoluta que te ofereço. É essa brutalidade do gesto: a violência que desejamos não encontra o alvo do desejo que sempre procurámos. O medo inviabiliza o desejo, ampliando a dor da paixão inerte.
Alguns não desconhecem o que se revolve sob a coberta que esconde da curiosidade sagaz da multidão, os murmúrios do resvalar delirante dos tempos. Serão esses que, um dia, gravarão o gesto na memória do futuro.



Monte Gordo, 19 de Julho de 2010


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