quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A Vetusta Cobertura


Como vaga de um mar sem fim, a mortalha do poeta cobriu de espanto o pântano das cidades sobrenaturais, e o sangue do cadáver tatuou a vetusta cobertura, revelando o sudário sagrado, o santo sudário ardendo na orla do deserto, escorrendo da lâmina que desenha a silente cumeada do abismo, labirinto onde as hienas desesperam para lamber o desenho morno das palavras, as facas reluzem nas sombras inúteis da tempestade, onde as multidões se atropelam em outlets negociando, a preços de saldo, amor e amizade. Agarro o pano aconchegante da morte e arrasto-o até ao peito, sinto frio nos pés, encolho-me como um político mal nutrido, vagabundo na podridão das insinuantes serpentes, e lanço o olhar através da memória superficial dos outros: a visão que me assombra vem, venenosa e nevoenta, refazer a realidade e mostrar às pedras que me conduzem a caminhada, a linha da vida que traçarás na erva curta que te servirá de alimento e leito. A partir de agora, não desejarás o que te não pertence, não mais poderás atingir a eternidade que a morte contém e guarda. Há de o vento soprar com violência e os sonhos cristalizar no medo. Nascerão, depois de tudo o que conheceste, crianças todos os dias.
Vn Famalicão, 24/12/2018

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