Vendendo poesia nos mercados de gado, poemas gordos,
Anafados, cheirando a suor, mancha penetrando
O clamor da clientela, levantando poeira espessa
No chão que as palavras pisam.
- olha!, que animais estranhos, comentou uma criança curiosa.
- Cala-te!, cala-te! ou levas, não vês que as palavras se assustam!,
Cortou a mãe. São tão sensíveis as palavras!...
- são tão lindas as patinhas que as transportam, aventou o filho.
- Não vês que não são patinhas, são sinais do vento agreste
Roçando as proas dos navios qua as transportam, navios sem rosto
Atravessando o sangue vomitado em segredo pelas mulheres
Que cobrem as chagas escarlates, as escaras que balançam nas fezes dos animais.
Animais sem imagem, peados e prisioneiros das metáforas, caminhando pesadas,
Aspergindo as clientelas voláteis com o seu odor silencioso. Palavras
Náufragas nas peles suadas, náufragas na lama paralisante dos dias,
Nos lábios acorrentados à voz púrpura dos rebanhos.
- mas, continuou a criança já exausta, eu só vejo bichos com tabuletas ao pescoço.
Tabuletas com preços e quilos. Tantas tabuletas, mãe!
- Tabuletas, tábuas, palavras. Conceitos indissociáveis. Tudo o que resta será
Pensado outra e outra vez como o tudo que o Álvaro de Campos queimou com um cigarro,
Que o tempo lhe concedeu, o tudo que não era senão a tabuleta do gerente da Tabacaria.
Olha como as palavras se encostam umas às outras como se o amanhã fosse hoje
E o mar fosse um só. E o infinito afinal não passasse de um sonho que o pensamento
Não faz existir. Foda-se toda a interpretação das palavras, das tessituras da linguagem
E dos malditos que a escarram nas noites de solidão. E blá e blá e blá. E outra vez, blá.
Um dia, que o futuro arrastará até nós, as minhas palavras serão tuas
O menino, sábio, tinha adormecido com o mugir das vacas.
(…)
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
um menino sábio
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Tudo também pode ser nada
(sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...
-
Fui a Marraquexe três vezes. A primeira, em 1983, à boleia e de comboio. Desci na cidade com um dos meus maiores amigos, o Pedro Arroio, que...
-
O nosso amigo Rogério Cão, um algarvio de Vila Nova de Famalicão, é o Prémio Calceteiros de Letras 2025. Este Prémio, uma espécie de óscar ...
-
Entre ... e ... também corre um deserto de pedras. Uma borboleta pousou numa nespereira morta. Uma abelha morta no meio do cus-cus. Nunca di...
Sem comentários:
Enviar um comentário