quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

um casaco negro

Agora mesmo, no arame laminoso:


Saio de casa com um casaco negro comprado na zara,
Um casaco de escritor barato e com muitas gavetas, e entro pela rua
Assobiando knockin on heaven's door do dylan. Vou a um festival literário.
O casaco negro está-me largo, mas dá-me um ar gingão, e assim vou
Deslizando na calçada gasta da velha rua. Piso merda de cão, e sou só eu
Que avanço na escuridão dos dias sem regresso. Hotel pago e comida
Num restaurante manhoso, abraços e beijos na passarada envolvente, 
Selfies para sempre com camaradas da arte das palavras e, com sorte,
Com alguma estrela do firmamento distante. Sorrio. O casaco assenta-me tão bem!
Sorrio a quem passa e quem passa pensa que é um doido que passa.
- Com um casaco daqueles…
Espero o autocarro 16 no fim da rua. É que eu vou da Venda Nova e o 16
Começa mesmo ali pelas Portas de Benfica. Foda-se! Não me falem de Benfica que até fico embriagado. 
Da bola não percebo nada, mas sofro por esta merda de clube que só
Me dá desgostos e arritmias.
Cá vou eu no 16 feliz como uma pedra atirada ao ar que cai na cabeça
Duma, foda-se que a minha amiga Ladislaia não gosta nada que se escreva duma;
Digo, de uma criança. O meu casaco ocupa dois lugares no autocarro: o meu
E o que devia de ser da senhora que vai agarrada ao varão vertical do corredor. 
O varão é de metal prata incandescente e faz-me lembrar, ai a puta da memória 
a atirar-me sempre para lugares intangíveis e escorregadios, quando fui com mais
três poetas a uma casa de putas com um varão no meio do salão. Estávamos tão bêbedos
que até eu dancei no varão. E olhem, aqui que ninguém nos ouve, que até tinha jeito .
O pior foi quando uma menina, bem engraçada, por sinal, me meteu a mão num lugar
Que me faz corar só de pensar onde. Os três poetas a gozar o pratinho e eu alumiando a casa 
Com as minhas vergonhas. Mas, foda-se, cá vou eu no autocarro 16 com o meu casaco
De escritor que, diga-se em abono da verdade, me fica um bocadito largo...
Miro-me no vidro da viatura e pareço mesmo quem sou: um palerma vestido de escritor
A caminho de uma festa de palermas vestidos de escritores.
Saio numa paragem qualquer. Knock, knock on the heaven`s door. O casaco esvoaça na brisa
E aperto-o. Como é largo deixa entrar na mesma o frio da maresia que se alevanta.



Cativa 23/11/2017


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