terça-feira, 25 de janeiro de 2011

atravessando a calmaria

 



 


 


às vezes aparecem na cidade


figuras recortadas na paisagem brusca


retirando da luz a sombra que cresce


na calçada pardacenta


 


um homem senta-se numa cadeira


azul e o vento fustiga-lhe o rosto


(quantas vezes já o dissera) imaterial


são três horas na tarde e o crepúsculo


assoma-se por detrás da noite


 


uma mulher, que o sopro da ventania


não incomoda, observa o que as horas


aspergem no desassossego dos sentimentos


criptados, na voragem das palavras cruéis


atravessando a calmaria que a envolve


aproxima-se da cadeira azul enquanto


o relógio da torre açoita o ar diverso


debruça-se, suavemente, sobre a cadeira


e beija o cabelo revolto do homem sentado


 


o relógio repete a linguagem do tempo


três vezes na cidade engolida pela sombra


as árvores despem-se para enfrentar o frio


 


 


o beijo atira o homem até aos confins de si mesmo,


até onde a solidão desaparece e o mar morno


contorna o emergir das palavras


 


a mulher reergue-se do beijo


e desloca-se imparável para o fim da rua


onde a espera a eternidade


 


a noite cobriu de trevas a cidade


e o homem renasce na esplanada


de cadeiras azuis, bebendo cerveja


com figuras que convergem no


esquecimento da dor


 


o caminho divergente acontece


quando as rédeas do afecto


não resistem ao que materializa a solidão


 


contra a tempestade ergues a dor.


 


MG 20/12/2010

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