O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada.
O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada. Uma porta aberta para o vazio. Ainda antes de ser dito, já fede a cadáver santificado. Antes de escrito revela já a cicatriz que o devora. Só o poeta desconhece a inutilidade da criatura neófita. Tudo o que resta dessa criatura será um rasto de sangue e sombra. Uma cicatriz feita estrada que nos conduz e oprime: um desfiladeiro de dor, grito, escorrendo para a noite. Sentado nas bordas do penhasco, o poeta crê que as acelerações da corrente são o resultado da força impagável das palavras. Varado pelo destino entontecido, perecerá.
março de 2023, Cativa
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