Enquanto passeio o meu cão, vamos sempre falando em francês. É um hábito que temos desde há muito: eu em voz alta, deliciando os transeuntes que connosco se cruzam (coitado, nem animal o salva); ele sem emitir som algum: parle avec les yeux. A vida dos cães não é muito diferente da dos homens: cheirar merda nos caminhos, o cu dos seus semelhantes e mijar por todo o lado marcando território. Até uma trela nos conduz pelos destinos que trilhamos. Quando cheiramos um osso, somos capazes de esgravatar a terra e desenterrá-lo mesmo a grandes profundidades. A terra e as pedras esgravatadas atiradas para cima dos outros, cobrindo de pó as superfícies. Sujando quem se atravessa. Viens! Ne me quittes pas! O meu cão é teimoso como uma pedra. É quando tenho pressa que ele mais se aprimora na sua atividade arqueológica. Chega mesmo à arte da espeleologia. Se lhe desse tempo chegava à Nova Zelândia. Às vezes, tenho que ser bruto e puxo-lhe a trela com força. Esganando-o. Tu me emmerde, chien! Olha para mim com os seus olhos tristes de incompreensão e faço-lhe umas festa como que a pedir desculpa. Mon ami. Escusez moi! Quando era novo, o canídeo, andava à solta pela quinta e pelos campos em redor. Era feliz! E eu também: porque o via feliz e porque não tinha que o passear pela trela. Só que, como seria de esperar para um humano medianamente inteligente, cão à solta igual a problemas à solta. O malandro começou a frequentar quintas vizinhas com galinhas livres e a trazê-las para casa. Quer dizer, a trazer as suas carcaças. Um dia a minha mulher tropeçou numa metade de galinha à porta de casa. Partiu os dois dentes da frente do maxilar superior e a brincadeira custou-nos para cima de quinhentos euros.Outra vez apareceu-me a GNR em casa com uma queixa de um vizinho que tinha sido perseguido pelo Matrix na sua zundhapp. E, o que determinou a sua vida futura, foi a cena bíblica com que me deparei um dia quando cheguei a casa depois de um duro dia de trabalho: uma mulher gorda, enorme, de grande chapéu de palha, esperava-me com uma galinha gigante pendurada numa mão, enquanto com a outra geria os saltos raivosos do animal, com um valente cajado sem moca. Lá acalmei o cão, arretez toi, tais toi!, e a mulher com uma nota de 20 euros. Era galinha do campo e já estava encomendada na cidade. Ainda ponderei pedir a demonstração da prova do crime, mas, conhecendo bem o criminoso, achei por bem não o fazer. Conflitos com vizinhos são o pior dos infernos da vida no campo. O próprio homem da mulher da galinha, disse-mo um outro vizinho, já tinha ameaçado dar "um tiro no cão e outro no dono". Uma tarde, já bem tarde, depois de desaparecido por três dias, o pobre animal, chegou a casa, desorientado e em pânico, com uma corda atada ao rabo com meia dúzia de latas dependuradas. Tive que tomar decisões drásticas e, quanto a mim, acertadas: criminoso em prisão preventiva, de factum perpétua, no quintal, e longos passeios pela quinta com a caçadeira do meu avô ao ombro. Não disparava, a dita, um tiro há mais de 50 anos, mas isso só eu o sabia. O presidiário era contemplado com dois passeios diários pela trela. Exigia-os quando chegava a hora e parecia tão feliz quando passávamos a portada retentora que me parecia mais feliz com esta nova situação do que quando era totalmente livre. A liberdade a conta gotas torna-se num vício definitivo. Continuámos, é claro, a conversar na língua de monsieur de La Palice.
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