segunda-feira, 8 de maio de 2023

Fede o chapéu do ortónimo


 



Viste o que o que a sua voz trouxe

de novo à questão do mundo? Ainda nem tinham passado as dores de cabeça ao senhor Pessoa quando o sinal vermelho caiu. Os pássaros atravessaram a rua e cagaram no chapéu do ortónimo. Voaram para bem longe: o plumitivo não era para brincadeiras e transportava uma pandilha de gente doida na cabeça. Não podemos esquecer a situação dos entes estranhos que dançam de mansinho no pudor da solidão sangrenta. O caminho é um casamento entre o sonho e a morte: nunca das veredas da dor se escapuliu um defunto que atravessasse os olhos do devir. A manada que prossegue, gemendo, a caminho do matadouro. Não esperem clemência da dor. Do esplendor da realidade. Não podemos ser obrigados a dançar as valsas da demente orquestra. Da ritualidade sinistra dos maestros assassinos, oráculo onde os cavalos esquálidos enfrentam as náuseas tormentosas dos cemitérios.

- Quem rege os pássaros que espreitam no fim da estrada de sangue? Que singularidade é a tua que te arrasta no alcatrão cansado à procura de luz?

O Poeta não nasceu nem cresceu. Não sabe o que o dia de amanhã trará! Finge de mim e não me concede vontade para nada. Dançamos como pedras antigas, metamorfizadas, rangendo nas noites antigas. Somos o rodopio do vento burilando o tempo. Se não olhares, nunca verás o Poeta desaparecendo na esquina da vida: das vidas múltiplas sem regresso. O chapéu fedendo a podridão alada.



Cativa

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