segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Alforrecas e moelas


 



Tinhas perguntado sobre o porquê das alforrecas aparecerem mortas nas praias, e eu, sem saber como responder, retorqui cinicamente, talvez até maliciosamente, que era o sinal do seu fracasso, a desistência de continuar: enfim a aceitação do que o fim determina. E então porque continuam a provocar comichões várias nos incautos caminhantes nas espumas da maresia? Não será isso um sinal de resistência à morte. Diria, que de alforrecas, tenho que ser sincero, pelo menos comigo mesmo, nada percebo ou entendo, o que qualquer leigo poderia dizer sobre assuntos transcendentes e etéreos: nada do que me fascina me espanta. O gozo torna-se sempre mais cortante, coerente, diriam alguns, e até, digo-o com alguma legitimidade, mais íntimo quando desconhecemos o caminho que trilhou até nos atingir. Se for à traição, melhor!

O tempo, que estava quente, passava dolente. Nas entranhas dos pássaros acoitavam-se grãos de sabedoria indeterminada. As moelas nunca paravam. Eternas enquanto os corpos se dispunham a continuar.

Demos as mãos e fomos pela praia fora indiferentes ao destino das gelatinosas criaturas que iluminavam a babuja. Todavia, evitando a sua indesejável adjacência.



Pisa, 1 de agosto de 2022

Sem comentários:

Enviar um comentário

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...