quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Y1 - Palavras para pintura (ppp) No regaço da dor


Quando vens até mim transportando as tuas incertezas no regaço da dor. Quando chegas sem remorso algum em relação aos tempos comoventes da nossa solidão repartida. Quando o vento me diz o que não quero saber, e nunca soube, as confusões construídas por mal-entendidos jamais esclarecidos sobrepõem-se a tudo o que algumas vezes sonháramos.
Não há nas densas sombras das noites um sequer riso que nos descongele as emoções, as impossibilidades de compreender o outro, enfim, os reflexos inertes da esperança por explicar. Desenhos numa face rasgada por cicatrizes voláteis, riscando o futuro como palavras brutais que penetram a música censurada, liberta no éter, atravessando as bocas unidas num coro que vomita acordes fedendo a absinto. Lembramos os tempos já amortalhados na memória abandonada pela voragem incontinente dos mirones que nos acompanham no caminho. Que nos resgatam da carne imagens vazias de antanho. Eu não sou o que fora nos teus braços; a amplitude oblíqua, brusca, do rasgar da pele, do convívio insano da carne, da espiritualidade desconcertante dos ossos, do ainda impossível tráfico das vísceras, rejeita quaisquer sentimentos eruptivos da filogénese que comanda as artes vitais. Do amor. Sem açaime, os órgãos dispõem-se na estrada como animais selvagens colapsando sem rede. Rastejando por entre cardos e pedras latejantes. O caminho estará vedado a quem não acompanha o vil uivar das comadres patrocinadas por empresários bem-intencionados. O uivo das almas de quem não chega a lado nenhum, e inspira os dejetos acantonados no imaginário dos imbecis.
Quando as nossas mãos procuram a lentidão dos gritos esventrados e manipulam ostensivamente o pulsar das criaturas e dos venenos que as encorpam, somos só uma alucinação no clamor da luz que substitui o tempo oculto. O tempo sem fim repetindo a dor que parimos juntos.



Monte Gordo, 17/12/2019


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