segunda-feira, 15 de outubro de 2018

silicon valley


 Em silicon valley os colaboradores de unicórnios dormem em autocaravanas à porta das startups para não perder tempo entre a casa e o trabalho, tomam pastilhas e tabletes para não gastar o tempo com refeições alienantes, trabalham, até, de fraldas para dispensar a frequência das insípidas casas de banho. Em silicon valley os teclados de computador têm triliões de espécies de vírus, bactérias e ácaros e os dedos dos criadores de sonhos e crenças para incréus rendilham figuras com os neurónios desassossegados, não passam de viajantes sem destino e sem memórias. Em silicon valley o inglês é a língua que fenece nos lábios fechados, ali se ergue, na rede que globaliza, a nova e indestrutível torre de babel, ali convergem os infelizes que inventam o novo mundo e programam o homem novo. Em silicon valley os logaritmos contagiosos rastejam nas redes sociais. O homem novo vomitado sem revolução, o homem digitalus, o homem tornado robô e desligado da natureza perversa em que o tigre devora a ensanguentada gazela. Em silicon valley os homens e as mulheres não fodem a não ser nas férias, que são raras e só quando a depressão é grande e a felicidade espreita. Masturbam-se com as mãos que se perdem nas teclas indigestas das máquinas e nos ecrãs tácteis. Em silicon valley, e no resto do vale, que é o resto do mundo, o amor foi esquecido e anda pelos abismos das noites sem néon à procura da humanidade cruel, continuando a errar e a apavorar o homem novo. Para que tudo seja perfeito e que as consciências atinjam o paraíso é preciso conquistar o sono: o capitalismo só será a vida, a vida inteira, quando a humanidade permanecer em eterna vigília. Em silicon valley os vermes, cookies divinos, governam o mundo a partir de intrusos que passeiam na tua cabeça. Não deixes acabar a noite fria.

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