Quando abri a janela do quarto, depois de uma noite de inquietação convulsa, entrou uma brisa fresca e na pimenteira bastarda um casal de rolas debicava-se amorosamente. Depois da higiene pós sono e do pequeno almoço lento, saí para o quintal e vi que a minha gata rasgava o corpo indefeso de uma das amantes da moldura da janela. A outra, aparvalhada, seguia a tragédia no alto seguro da pimenteira. Um amigo meu está sempre a dizer que os gatos são uns assassinos e que constituem um perigo para muitas espécies em via de extinção: matam milhares de pássaros, osgas, lagartixas, cobras, ratos, perdizes, coelhos. Até os nossos queridos camaleões. Os gatos deveriam, ainda segundo ele, era estar em casa, castrados e enclausurados. Discordo sempre veementemente e daqui não saímos. Eu que é a vida, que gatos esterilizados e presos é que é um atentado à natureza e bla e bla e mais bla e encurralados na discussão. Hoje, arrasei-o: sabendo da sua paixão por veículos mototizados, atirei-lhe à queima roupa "e então os automóveis?"
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