quinta-feira, 7 de agosto de 2014

o nevoeiro apoderou-se da tarde de verão


 


Hoje o dia pareceu-me enevoado


e a juventude foi-se-me sentar


entre as cãs e os longos silêncios dos peixes.


O meu filho disse-me, depois de uma ligeira


altercação, sem olhar o meu corpo


esparramado comodamente no sofá, tenho lá culpa


de teres atingido a andropausa. Amei e estive


3600.000 dias sem dizer uma palavra.


O banco onde depositava as minhas parcas


poupanças faliu. Fiz sexo com o candeeiro


da mesa-de-cabeceira que teimava


em não se acender quando pretendia ir mijar


pela calada da noite. Mil vezes. O prejuízo


 do meu banco foi de 3600.000 de euros –


bem maior que o meu, está claro


(pobres banqueiros) -, e eu acho que não escaparei


à  morte em 2040. O metano e o dióxido de carbono


farão o trabalhinho de forma absoluta sem


recurso à metafísica. O Tribunal Constitucional,


em que acreditava piamente, ditou


que o roubo aos pobres estava claramente


dentro da moldura penal consignada na lei


Suprema da nação. Quando os senhores doutores


juízes acordarem será tarde de mais. O fim da humanidade


em 2040 foi ontem. Vi, ainda agora, um homem beijar a pata de um cão.


O gesto, sincero, comoveu-me e o meu ventre estrebuchou


chamando a atenção da vizinhança que ruborizou levemente.


O antigo primeiro-ministro, o antes deste,


 foi acusado de corrupção no mês passado.


Defendeu-se dizendo que no mês passado já não era primeiro


nem nada na classificação dos entes candidatos a comprar


o Novo Banco. O que renasceu das cinzas do meu banco, entretanto falido.


Acabei de alcançar o nível 4 num jogo on-line e perdi o resto que tinha ganho


à  sueca com a rapariga do rés-do-chão direito. Era uma madrugada


clandestina a que me esperava. O nevoeiro escondia-a num poema


 de ideias controversas. A andropausa mental


 é muito mais perigosa do que a biologia. Toda a biologia.


Estando esta última por provar que aconteceu.


O maldito candeeiro da mesa-de-cabeceira tira-me


a  tesão toda: só se acende quando quer e eu a espumar


toda a noite. Sinto as articulações cansadas (tendinites?)


só de pensar em 2040. Tomo um chá de galafito com um


placebo qualquer para enganar a ansiedade e elejo a melhor praia da Europa:


Praia de Cabanas!, como nunca poderia deixar de ter sido.


Só por acaso estarei vivo em meados de 2040. Se não me engano andarei pelos…


            2040 – 1958 = 82   posso até assistir no you tube


à minha própria morte. Até, talvez, editá-la.


Desconfio mais da crueldade do metano do que na do dióxido de carbono.


O CO2 é-me muito chegado. Nada de científico, é uma intuição


Que me empurra mais para o metano. Cheira-me a Inferno.


O que pensará o Tribunal Constitucional do fim do mundo?


Poder-se-á considerar o fim do mundo inconstitucional? Até,


anticonstitucional? Nisso não acredito, o fim do mundo está para lá


das jurisdições humanas. Da moldura do Criador. O que só revela


da insanidade geral dos homens e da fraudulenta misericórdia de Deus


para com os banqueiros espeleólogos. É-me insuportável


assistir ao bailado das meretrizes míopes escaldando os pés


no palco de metal que a música consome.


Para entender a convergência da economia paralela,


e  mesmo, ou talvez, sobretudo, a  perpendicular, na direção dos paraísos fiscais


que pululam de Manila às Ilhas selvagens, da Micronésia de Malinowski


à  Macaronésia de Alberto João Jardim, dirigi-me


ao meu psiquiatra e estendi-me no divã


à espera das sombras que envolvem a luz intermitente


do meu candeeiro de mesa-de-cabeceira. Da redenção inicial.


Revelou-me que o meu sono estava desenhado segundo


os padrões internacionais aceites pela Internacional


Socialista e que o humor que transportava


no inconsciente podia muito bem ser fruto


de um resquício de festa de anos celebrada


em Chefchauen em 2004. O perigo, continuou,


seria sempre o de me calar sem antes rejeitar


a simpatia que me ligava ao FMI e esquecer


os dias passados a percorrer as sedes dos bancos suíços


a tentar abrir cofres com um canivete multiusos.


Poderia nem chegar a 2040 e atingir a eternidade antes


do tempo gravado na coronha da espingarda


do meu tetra avô que agora, por acaso, é minha.


Despedi-me atenciosamente e, retribuindo a simpatia,


o  clínico não me levou dinheiro pela consulta.


Parti dali em transe semi-induzido e as insónias


que o tempo adivinhava fizeram de mim


um zombie até aos dias preliminares a 2014.


O nevoeiro apoderou-se da tarde de verão


confessando aos turistas que o suicídio era um privilégio


de banqueiros. Quando a luz do candeeiro de mesa-de-cabeceira


inundou de luz o quarto, atravesso a andropausa e,


para sempre jovem, sento-me na cama à espera de 2040 a ler as aventuras


do cavaleiro da triste figura.


 


Cativa 31-07-2014 (anos do Guapo)

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