sexta-feira, 16 de novembro de 2012

numa tarde de chuva


pintura de Rui Dias Simão


 


Da janela escorria uma camisola ensanguentada.


Pingava na terra encharcando o vazio


Que se assomava por detrás das casas.


Três facadas na carne rasgando


Os tecidos nauseabundos, expulsando


O sangue em golfadas efervescentes.


A minha mãe já não mora aqui e o sangue,


Que também é o dela, cai no pântano


Morno cobrindo o chão da cozinha.


A camisola envenenando as ervas daninhas,


Alimentando os vermes que me consomem o corpo.


 Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo


O ar brutal do bairro sórdido, não há crime


Sem castigo!, berrou o homem sem significado


Que assistia a tudo.


Nunca um crime foi sentido por mim


Nas fronteiras da solidão, respondi eu


Cobrindo a retaguarda.


Ratazanas sem compromissos escapuliram-se


Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.


O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.


As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos


Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.


Conhecidos mas não identificados nas complexas


Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola


Aspergindo o espetro rastejante da pobreza.


Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando


Um rasto de informação ofecendo


Aos caçadores de infinitos


O odor que os levará ao covil da presa,


Ao definhar do ritual do fogo e do sangue


Que rege o ordálio crepitando nas mentes


Experimentadas no silêncio, na viagem


Interrompida por deus.


A multidão rumina dissolvendo as persianas


Ululantes das personalidades elementares.


O crime percorre as ruas por entre


Conceitos duvidosos e ideias lancinantes


Abandonadas pelos que temem os estrangeiros


Nascidos entre os nossos. A matéria


Que compõe os heróis regurgita no princípio


Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões,


E o crime assume a vertigem da virtude


Incontestável e una.


O sangue que brotoeja das feridas escancaradas


Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando


A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração


Do corpo que reproduz o regresso ao fim.


 


Duma janela apontando a noite pinga


Uma camisola ensanguentada.


 


Vrsa 13/11/12


 

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