terça-feira, 10 de abril de 2012

nunca teve importância


 


Não tem importância, nunca teve,


é uma gramática da pele, irrompe


sempre que as calmarias assentam


na reflexão contemporânea do olhar.


 


A importância das coisas é, ainda,


o panorama do silêncio para além das paredes,


conversa publicada no obrigatório confluir


das cerejas mordendo a própria língua.


 


Na tua luz a minha fala não tem


importância, filha da puta zurzindo


as ameixeiras que cada escritor ama.


 


Regressas à terra onde os gambuzinos te


inspiraram as primeiras, e únicas, palavras,


à terra que apenas existia debaixo


dos teus pés, à terra fragmentada


 no imaginário inquieto das traseiras


do teu quarto. Porra! Eras um miúdo


distraído, cantarolaram as velhas


da aldeia atirando as orelhas para


o interior das almas fedendo a antanho.


A trilogia nauseabunda, extirpada


por arqueólogos assassinos que procuram


o mal oculto nos corpos, cega a vida virtuosa,


as pontas soltas dos devir: passado, presente e


futuro numa amálgama coberta de pó. O jogo


completa-se quando se juntam aos arqueólogos


assassinos companheiros vindos das profundezas


dos abismos dedilhando teclas de pianos “au menier”.


Foda-se, disseram em uníssono os escavadores de projetos


adiados: mineiros, autopsiadores, coveiros e poetas.


Escancararam portas para o profundo e iniciaram


 uma digressão pelo mundo das sombras, questionando


o velho e o novo que se esvai em ninguém.  Em


perguntas estéreis que ecoam nos complexos


jardins de carbono, viajando na infância precária.


 


Na comédia instrumental que percorre a noite


só os coveiros conseguem resultados tangíveis


e metamórficos: teorias da morte ou deriva das


paixões. A terra que volta a cobrir


o que confundiu a paisagem dos desafinados


caminhantes das sombras, xamanes da putrefação


 divina, revela uma única verdade,


só uma, que amontoa escombros  nos corpos


intumescidos. Só o poeta engole a última garfada:


o assassino da vida escassa, das asperezas da língua


silenciando o amargo estertor do sonho.


 


Não tem importância nenhuma, nunca teve.


Amém!


 


M.G.  10/04/12


 


 


 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...