quinta-feira, 19 de maio de 2011

o sorriso da loucura


Deu-me uma branca e esqueci o meu nome. A mania


que imaginara enquanto enfiava a roupagem


do lobo mau, fez-me detestar as cócegas que os filmes


de polícias e ladrões me presentearam.


Na ginástica, ninguém saltava mais alto que eu, dizia catapultando


o corpo por cima dos automóveis engarrafados.


Deu-se-me uma branca e o queijo que roía, distraído, não


me sabia a nada.


Olá!, atirou-me o anúncio da pepsodent. Gosto


 de gajas e a mulher do sorriso branco desafia-me


os instintos que adquiri na selva. Foram baratos


e, por isso, voavam sobre rios e precipícios. Às vezes


era preciso ser campeão de espeleologia para aceitar os convites


da vizinha antes do anoitecer. Mal transpunha a porta


via a loira pepsodent e esquecia-me da vizinha boazona


que me outorgara o convite. Começada a brincadeira


 com a outorgante; que não tinha olhos azuis, nem cabelos loiros,


nem sorriso uniformizado; ficávamos tão felizes que os corpos nus


pareciam saídos de um documentário sobre lontras no pacífico sul,


ou de uma telenovela mexicana em tempos de crise.


Grandes tempos aqueles! O que dava pena era ver o marido


 e o papagaio a brincar às gaiolinhas enquanto esperavam o jantar.


 


Queres ir ao circo?, perguntou-me ainda o papagaio antes


da minha saída pela escada de incêndios.


Não, obrigado, e… boa noite senhor doutor.


Pareceu-me entristado,  o cumprimentado anfitrião e vizinho


dedicado: o trabalho de doutor devia ser um bocado chato,


concluí, puxando o fecho eclair até acima.


A vizinha atarefada controlava os tachos quentes


na cozinha nublada.


 


Deu-me uma branca e nem sequer a minha identidade reconheço.


Aliás o que vira na televisão era uma mancha branca


Por entre os lábios da confusão.


 


MG 19/5/2011

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