sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

chegámos tarde e a noite avançou


 


Chegámos tarde e a noite avançou, o estatuto da noite não morava ali.


Quantas vezes tinhas empenhado as jóias que reverberam da cerveja bebida na tasca


depois da cerimónia da morte?


O objectivo era unificar a arte, a cultura e a terapia que sublinha


o rumorejar da ausência inerte.


A desesperança encontrava, na associação com os projetos de renovação,


direitos inapeláveis onde os gritos executam


a panóplia inacabada das competências esquecidas.


O morno escriturar da mitológica raiz na plenitude imprime a tatuagem larvar


do caminho interrompido , nudez do rosto avançando,  que aquece


a ordem na arquitetura do sonho.


Quando chegámos, os rostos que sobressaem da espessa penumbra,


rejubilaram de alarvidade.


Dás-me  contas da incompletude nas pegadas impressas de vida,


daqueles  que perdem a utopia viável dos cataclismos confortáveis e nus.


Agarramo-nos à insuficiência dos presentes e arrancamos palavras soltas,


inimputáveis e corruptas. O sabor do ritual irrepetível é uma onda


de desejo  que cumpre os critérios obtusos da multidão.


Os documentos são irreversíveis e envolvem vontades instaladas, revoluções


impraticáveis que renegam os pensamentos estultos e ressabiados,


emergentes da máscara desoculta na balbúrdia reflexa.


Os dias arrastam-se na envolvência das emoções inadiáveis, receita


da casa que não esquece os jogos arquitetados na distância da semente,


os dias são o que não entendes nos outros, as vidas que se cruzam


em múltiplas imagens no espelho paradoxal.


A maresia eleva-se dos espíritos que vagueiam no labirinto


catártico da poesia primordial. O elenco da putridão oblíqua


manifesta-se quando a lâmina penetra a frieza do olhar. É um desenvolvimento


esperado sem a aprovação dos que não dormem enquanto sonham


o desfilar das figuras fragmentadas pela  luz.


Retiras a sensatez aos que desprezam o inútil esculpir da realidade


suspensa no pesadelo das sombras.


 


Chegámos e o jardim contemplou-nos sorrindo na placidez da tempestade.


 


(Tavira, 27/11/2010)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...