segunda-feira, 31 de maio de 2010

ninguém pode comprar a loucura

 



os socos nos ponteiros.


A vida passando como um comboio vazio errando nos carris.


A imbecilidade no palco arranca mais aplausos.


O sangue grita alto.


O amor dissolve-se no sangue como açúcar amarelo.


A palavra"tudo" é forte demais.


E o resto apaga-se fumegando.


Caiu o pano e a lua desaparece


ninguém pode comprar a loucura


o vento é um boeing transportando natureza.


Não há diferença nenhuma entre a areia do deserto e a da praia.


O erro está perto demais.


Este carro tem rodas mas não leva a lado nenhum.


Tudo o que se diz é uma mistura de gestos e barulho.


De noite os cegos vêem a lua.


O decote dessa mulher é a fronteira da maternidade.


O som do mar é mais nítido quando não há nuvens.


Todas as cidades deviam ter sono.


O arco-íris é a terceira obra de Pollock


a verdade usa"lingerie francesa".


A terra é uma bola com chantili que o mar ainda nã acabou de comer.


A arte não se envergonha nada, de ninguém.


A música, assim como várias outras coisas entre as quais o sexo, é o meio


de transporte mais rápido, cómodo e seguro para o extâse.


Agora, já não sei nada.


Lennon tinha prazer em deitar a língua de fora e sonhar.


O exemplo mais recente da morte já não se usa.


O melhor perfume francês não é suficiente para disfarçar a podridão.


Umas televisões trasmitem imagem, outras não.


É vulgar dizer-se que chaplin substituiu o pai natal que se tinha


aposentado nesse verão.


A tradição não é velha, pelo contrário, é o exemplo mais jovem da cultura


dos povos que atravessaram o século vinte.


O computador já aprendeu a pedir desculpa quando se engana, mas ainda


não descobriu onde erra e o homem não consegue explicar.


É curioso como há homens que, quando morrem levam o mundo no bolso


e o caixão cheio de projectos.


Não há nada mais simples que o preto e o branco diante do olhar de um louco.


Continua a afirmar que os loucos não devem ser sujeitos ao procedimento que se


toma para com os presidiários, nem este aos mesmos.


A morte que forra os caixotes de lixo não altera os nossos produtos.


O pénis à sua janela vestindo uma camisa de noite.


Os seus sonhos debatem-se numa luta asfixiante entre lençóis.


Há uma frase que diz "Estes lençóis forrando-me o corpo são as paredes de


presídio mais eficaz do mundo".


Há outras frases que falam pouco.


A esta hora deve ser dita.


Nada deve ficar guardado para outro truque.


A poesia deve apresentar-se em palco nua.


O resto entra no segundo acto.


E quando os corações atingirem o "tropo forte" a luz cairá sobre a cena.


Os bastidores nuncam arrefecem.


Adeus.


A cabeça explode.


A caneta para.


 


( Palavras do Rui da Amadora, em dias de 1983, possivelmente no BloodY MarY, da Amadora)

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