sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Noite Inacabada

Um homem triste

Atravessa a linha do horizonte

Transporta nas mãos

Um saco de sonhos desfeitos.

Uns, tornados reais, dilacerantes

Outros possíveis e intocáveis, refractários

Alguns impossíveis, opacos ao alcance dos cabelos

Entornados.

 

Na enlameada estrada da vida

A existência comprometeu-lhe

Sorrisos desafiantes

Efémeros e vãos

Num cadinho de ilusões borbulhantes.

 

Atravessa o horizonte

Deixando atrás dos seus pés

Um rasto de flores, cemitérios e

Paixões

Um pesadelo, hálito incandescente

Na composição das águas

Em solavancos etéreos e ocos

Montanhas por cumprir sem

Compaixão desinibida.

 

Alguém cria na noite inabitada

De seres semeados em bandos de aves

Brancas

Calafrios gritantes na escuridão da mente entupida.

 

Alguém elabora um critério

Estranho e melancólico

Para avaliar os que tombaram

Nas ladeiras íngremes sem olhar

No soluçar prenhe das conveniências

Saltando degraus no comboio parado

Fora dos ferros paralisantes

Na implosão doentia

Das criaturas ofendidas.

Num caldo morno que arrefece

(O longínquo nascimento das púrpuras mamas entumecidas)

Apontando o sexo da minoria escalavrada

Os servos da orgia viciante e vermelha

 

O rio, a garça, sem graça, cinzenta que persegue

Os peixes voláteis

Sem tempo no tempo interminável.

 

Hoje atravessas a linha flutuante

No futuro perpetuas a árvore de pé

A teus pés

És um homem ensimesmado sem contornos

Reais.

 

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