sábado, 6 de outubro de 2007

A Feira de Tavira (nova corrida, nova viagem)



Tenho revivido as minha feiras  de Tavira dos tempos de meninice, agora através dos meus filhos adolescentes. Nos meus tempos a minha avó materna dava-nos "as feiras", qualquer coisa como 5 escudos, e eu rebentava com elas no primeiro dia da feira. Digo dia porque de noite não punha lá os pés. Nem a minha mãe tal autorizaria nem os transportes para a aldeia o permitiam. Só lá para os dezassete anos comecei a ficar pela noite dentro. Nos dias seguintes da feira, com uma cara de funeral, assistia ao divertimento dos outros e invejava-lhes a "riqueza. Sim, que só ricos poderiam gozar três dias seguidos  de carrinhos de choque, aviões, carrosséis e casa  fantasma.

Agora as atracções  são muito mais e mais espectaculares (vistas pelos olhos de hoje) e os tais de 5 escudos nem par uma volta de avião daria. Agora os carrinhos de choque são 2 euros e cinquenta, o Street   Figther 3 e e o Canguru 2.5. Uma verdadeira fortuna. Sempre a rodar e sempre cheios de adolescentes felizes e abastados.

Nestes últimos anos, desde que o mais novo dispensou o pai das aventuras a dois nos óvnis e carrosséis ( meduço oblige ), passo as noites de feira nas roulotes-bar bebendo umas imperiais e petiscando um polvo seco, na companhia de outros desgraçados pais que não vêem chegar a hora combinada com os seus rebentos (renegociada pela noite dentro com propostas irrecusáveis dos ditos) para finalmente aterrarem em vale de lençóis.

De vez  em quando os meninos e meninas passam pelo local do convívio paterno ( situado em palanque  privilegiado  de observação das diversões) como combinado previamente ou para reivindicarem   reforço monetário.

Desta vez o meu mais novo até ousou experimentar o famoso canguru. Uma espécie de carrossel que gira a velocidades proibitivas enquanto dá saltos bruscos para a frente e para trás. Os pares a isso o "obrigaram" que ele não estava muito para aí virado porque a primeira vez num instrumento de tortura como aquele mais se assemelha a certos rituais de passagem  para a condição de homem,  que põem a vida dos  ascendentes ao novo estádio em verdadeiro perigo de extinção. Como eu dizia, os pares, e principalmente as pares, fizeram-no correr tal risco que a um pai põe em estado de desorientação total. Não que não tivesse já assistido ao mesmo folhetim com o mais velho que agora, do alto dos seus dezassete anos, até no Street Figther se aventura, uma espécie de rampa de lançamento de foguetões com a técnica das fundas dos pastores, que faz as adrenalinas dos adolescentes atingir os píncaros da Lua. Mas ver um pré adolescente aterrado no meio de uma parafernália de ferros e luzes às voltas e reviravoltas a 10 metro do solo não é, certamente, nenhum regalo para nenhum pai. A não ser para aqueles que nunca conseguiram ultrapassar essa fase estúpida da vida. Estúpida mas a melhor e a mais bela de todas...
O que é certo é que o rapaz, que fez as duas primeiras corridas lívido e apavorado no meio de duas meninas da turma, tomou o gosto e repetiu enquanto houve dinheiro. Escusado será dizer que o pai, assustado mas orgulhoso, ainda contribuiu com mais algum numa negociação de dinheiro por tempo. Mais x euros menos y tempo na feira. Que sim, disse o rapaz rápido no negócio,  sabendo ambos que uma parte do acordado não seria cumprido.

O que é certo é que o heróico atravessador de rituais me chegou a casa todo amassado, com nódoas negras pelo corpo todo e com uma soneira que nem os dentes conseguiu lavar. Eu também não cheguei melhor. 4 horas sentado numa rollote-bar não dão saúde a ninguém. Aquelas cadeiras deviam ser proibidas pela ASAE . E já agora, e se esta diligente agência fizesse uma avaliação rigorosa ao "cangurus" das muitas feiras deste  país? Talvez se evitassem uns acidentes graves com jovens inconscientes (desculpem-me o  pleonasmo) e se contribuísse em muito para a saúde mental dos progenitores. Perdiam-se obviamente uns  quantos heróis mas isso é o que para aí mais há...

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