Este ano os filhos, possuídos pela estupidificante espuma da adolescência, alegaram valores mais altos para não poder acompanhar esta romaria. Ainda lhes acenei com as magníficas bifanas do Cercal, degustadas o ano passado, mas foram implacáveis: tinham assuntos mais importantes a resolver na santa terrinha. Como tal vi-me impelido a caminhar sozinho rumo às areias da bacia sedimentar do Sado.
Subitamente um bichinho que em mim habita e que às vezes me canta e encanta com velhas canções de estrada e viagem, sussurrou-me ao ouvido algo que me agradou de sobre maneira: a viagem solitária é a verdadeira forma de encontrar a alma. A aventura liberta e catapulta a criatura que sedimentou nos doces e pegajosos braços da classe média. A aventura é a vida. O caminho faz-se...
E assim peguei na minha velha Honda 400 e com um saco cama e uma pequena mochila com uma mudas de roupa, atirei-me à estrada. A velha máquina nipónica, desde o nascimento do meu primeiro filho (17 anos) mais habituada a longas estadias em garagens e armazéns do que ao ronronar no asfalto, não me merecia grande confiança. Se me avariasse no caminho estava decidido. Mandava-a por uma ribanceira abaixo e seguiria de táxi. Afinal, ao contrário que tinha acontecido em longas viagens no passado, a alternativa paga para continuar sem sobressaltos estava à distância da carteira ou do cartão magnético nos bolsos.
E como aventura é aventura, resolvi percorrer alguns lugares onde tinha vivido alguns dos melhores anos da minha vida de jovem inconsequente: Via do Infante, de Tavira a Lagos, subida pela costa vicentina com paragens em Aljezur, Odeceixe, Vila Nova de Mil Fontes, Malhão, Porto Côvo , Sines, Santo André (onde ainda vivi um ano) e Carvalhal. Para baixo optei por apanhar a estrada nº2 e reviver o passado nas curvas da serra do Caldeirão, que durante tanto tempo separou o Algarve do resto do país, e que conheci bem de inúmeras viagens à Cruz de Pau (Seixal) para onde tinha ido viver o meu irmão.
Nesta dorsal alentejana fiquei bem impressionado com o que vi. Aljustrel, Castro Verde e Almodôvar pareceram-me terras dinâmicas e com espaços públicos muito bem tratados. É claro que o tempo para um café ou uma mini com torresmos não é suficiente para tirar conclusões bem fundamentadas mas não me pareceu ver aqui um Alentejo a agonizar. Também na Serra do Caldeirão vi terras lavradas sem pastos e sobreiros bem tratados. Talvez por isso o fogo não tenha andado por ali este Verão.
Escusado será dizer que cheguei a casa remoçado e cantando ao vento. Ainda por cima fui recebido como Ulisses vindo da mais aventurosa das Odisseias.
(deixo-vos alguma fotografias da odisseia)
O vento da costa alentejana é uma riqueza.
Amigos para sempre!
Palitos marroquinos nas bermas da estrada.
Minas de Aljustrel.
Nas longas estradas do Alentejo.
Capela Real em Castro Verde.
Cheirinho a Algarve ainda no Alentejo profundo...
O descanso da velha senhora...
Curvas da Serra do Caldeirão, as mesmas de sempre. Pura adrenalina sobre duas rodas. Não aconselhável...
Pra cá do Vascão mandam os que cá estão!
A melhor cortiça do mundo.
Guerra das estrelas no pico da Serra do Caldeirão.
O regresso de El Solitário.
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