sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Dalai Lama e a Reencarnação

Por momentos o pânico varreu as chancelarias mundiais. Já não bastavam os terríveis dossiês do Iraque, do Irão, da Coreia do Norte, do Paquistão e da crónica confusão israelo-palestiniana e eis que o centro do turbilhão parece instalar-se em Portugal. Sua Santidade, o Dalai Lama, encontra-se em vias de reencarnar durante a sua visita à Câmara Municipal de Lisboa: Os dois extremos da Eurásia , China e Portugal estão prestes a entrar num conflito de proporções inimagináveis.


 


Mas voltemos um pouco atrás. Quando os governantes chineses souberam que na agenda do Sr. Tenzin Gyatso se encontava uma deslocação a Portugal, sorriram e  ligaram ao presidente em exercício da União Europeia a relembrá-lo que recepções oficiais já se sabe como é de outras visitas, com outros protagonistas. Que não haveria alterações , foi a resposta. Este assunto é um desígnio nacional, reforçou. É só mais um probleminha , veio do extremo oriente. É que o dito cujo anda por aí a falar na reencarnação e isso colide com os nossos desígnios nacionais" (ih,ih ,ih , pareceu ouvir-se do outro lado do mundo, talvez problemas de comunicação decorrentes de tão longas ligações ). Nós já proibimos a sua transmigração para outro corpo no nosso país mas o descarado diz que isso não constitui problema porque, vivendo ele no estrangeiro, a proibição não o atinge, o ingénuo. Já fizemos algumas propostas irrecusáveis a certos países no sentido de impedir a reencarnação do indivíduo por essas bandas. Até agora só obtivemos respostas positivas que muito nos sensibilizaram e como tal a nossa amizade far-se-á sentir para com esses amigos distantes. A porta das nossas casas estará escancarada à sua visita. Gostaríamos de poder contar também com a vossa compreensão lembrando que os nossos povos mantêm uma relação de mais de 500 anos e que, com certeza, se manterá até ao fim dos tempos... Mas em absoluto, outra decisão não poderia ser tomada  no âmbito de tão longa e intensa amizade que une os nosso países. Mandarei imediatamente o Magalhães exarar o decreto, obviamente secreto, a proibir a reencarnação de Su ... do Sr. Gyatso . Aliás darei ordens ao Magalhães que contemple qualquer tipo de reencarnação no nosso país. É uma honra poder falar com um amigo tão desinteressado e agradecer desde já a intervenção desse grande português e referência da humanidade esse navegador aventuroso que por cá passou (outra vez se pareceu ouvir, ih,ih , ih) o grande Magalhães . Não é es ... Não se incomode que por essas alturas a reencarnação não estava na ordem do dia e quem o quisesse fazer que o fizesse. Parece que o vosso Magalhães o fez sucessivamente e com sucesso. Adeus.


 


Escusado será dizer que o Magalhães não era o Magalhães mas sim o discreto, porém eficaz, secretário de Estado da Administração Interna. Tão eficaz que já tinha o decreto pronto ( o seu domínio do mundo cibernético fazia-o tratar por tu as agendas dos mais variados e destacados protagonistas da cena mundial) e só esperava a ordem do chefe para o carimbar e assim lhe dar validade. Só que  a decreto secreto poucos têm acesso. Mesmo sabendo que em Portugal quanto mais secreto mais  descoberto.


 


Regressemos à Câmara Municipal de Lisboa, onde é recebido o Dalai Lama com pompa e circunspecção pelo eufórico presidente e pelos entusiasmados vereadores Sá Fernandes e Helena Roseta. É certo que a cerimónia estava a ser manchada pela falta dos vereadores do Partido Comunista (também tinham recebido um telefonema de longe, de bem longe...) e do procedimento desinteressado do vereador Carmona.


Alguns dos presentes (diria mesmo muitos) conheciam o teor do secreto despacho do diligente Magalhães mas estavam descansados: quem iria escolher Portugal para a reencarnação do século. Outro palcos mais apetecidos se perfilavam para acolher tão mediático e significativo evento. Tudo calmo.


Eis que Sua Santidade, sem ninguém o poder adivinhar, se envolve numa espiral de empatia com António Costa. Uma torrente energética, um magnetismo poderoso e incontrolável envolve os dois. Uma auréola de santidade já envolve um apatetado presidente da edilidade e quando o Lama glorifica a voz do autarca muitos pensam que tudo está perdido. Telefones tocam em imponentes palácios pelo mundo fora. Malas com botões poderosos abrem-se em bunkers invioláveis. Sócrates; na Polónia , sua a bom suar enquanto explica o que se passa a dois apalermados gêmeos e tenta contactar o legislador fiel. Consegue finalmente. Vai a caminho do local onde uma luz poderosa envolve edifício camarário e pessoas que participam na cerimónia das cerimónias. Entra, qual bombeiro destemido, pela luz, sobe de um só fôlego as longas escadarias e entra, cego pelo clarão branco, no amplo salão nobre. Pestanejando empunha o decreto salvador e interpôe-no entre a Santidade que se esvai e a Santidade que insufla. A corrente quebra-se,a luz intensa esmorece e tudo volta ao que era antes de ter sido.


Ouve-se apenas a voz pausada da única Santidade presente, desejo-lhe os maiores êxitos nas próximas eleições . O Sr. Presidente tem uma voz fabulosa.


 


Magalhães retira-se com a sensação de dever cumprido, só isso. Na  Polónia os gêmeos assentem finalmente na assinatura do Tratado Reformador. Sócrates retoma o ar distante e frio. Magalhães será feito comendador no próximo dia da nação. O Sr. Presidente de todos os portugueses não dorme em serviço.


 

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