segunda-feira, 16 de abril de 2007

A Vida na Cidade

Esclareçam-me! Nas últimas vezes ( poucas, muito poucas mesmo ) que me tenho deslocado à grande cidade, tenho-me deparado com um cenário deveras preocupante. Amigos meus sentados no sofá,  frente à televisão e com uma mesinha (tipo para refeição de bebé ) onde, num computador portátil, navegam pela rede. Ecrã a três metros + ecrã a meio metro! Alienação total!

A amostra não é pertinente, mas é preocupante. Sobretudo a seguir ao jantar, filhos na cama   ( ou ligados a outros ecrãs ), são longas horas de zapping,  pixeliando pelas ondas hertzianas.    ( Poças! isto é que é falari! ).

Gostaria de pensar que estas situações são excepcionais e que a regra não se assemelha, nem por sombras, a esta pequena, pequeníssima amostra. Mas tenho cá um dedinho adivinho que me diz que não é assim tão rara esta nova "forma de vida".

Eu, que vivo no campo e que quando visito os meus amigos da zona os encontro a podar as gravílias, a rachar lenha para a lareira, a apanhar favas, a  jogar futeboladas com os filhos, a dormir, quando o tempo permite, nas suas camas-de-rede ou mesmo a  apanhar caracóis; os encontro, pela noite, a ler junto à lareira ( no Inverno ) e a conviver com os amigos nos alpendres nas cálidas noites de Verão algarvias, espanto-me e entristeço-me com estas tendências urbanas emergentes. Já não bastava a alienação* da maior parte dos trabalhos (empregos?) que para não se beliscar a auto-estima, se propagandeiam interessantíssimos,  mas que vendo bem, são inúteis e dolorosos?

Anos de vida ligados a ecrâs no trabalho e na alegre casinha. Anos e anos de vida passados nos esconsos interiores de automóveis e transportes públicos aspergindo fumarolas mortais na atmosfera cinzenta e envenenada.

"Estranha forma de vida" num espaço onde há de tudo. Onde a a oferta é tão variada que bloqueia a capacidade de escolha da maioria dos mortais. Excesso de informação difícil de  manipular e processar que se revela letal para a vida.

Continuando a aspar partes de letras de canções, posso apenas aconselhar a que se vê enredado nesta teia de constrangimentos e  incertezas: " muda de vida"!

* Alienação. Repitam devagar soletrando: a-li-e-na-ção! Velha palavra vilipendiada pela história recente e ausente da pena dos escribas modernos, mas que sulca o corpo deixando-o em carne viva. Voltaremos a vê-la a adornar os textos e não será tão serôdia a sua ressurreição. Obscurum per obscurius!

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