sexta-feira, 2 de março de 2007

Um Homem no Meio da Seara

A seara tinha-se feito linda, saudável e alta. O homem, no meio dela, confundia-se com a paisagem. Não parecia um homem, era um elemento da seara. Ninguém distinguia uma espiga da outra, uma cabeça de uma espiga dourada. Tudo era tudo,  nada também. O homem sentia-se despersonalizado e triste. A beleza da seara só era perceptível vista  de fora. Ondulando ao vento, a vegetação áspera provocava-lhe cócegas irritantes. A auto-estima individual diluía-se na murmurante multidão anódina.


O homem não aguentou mais: urrando ao vento esmagou a seara envolvente e emergiu uno e imperial. Na paisagem vislumbrava-se claramente uma figura humana erecta e besta. Um narciso reflectido na superfície polida da solidão.


 


P.S. Se a paciência não tivesse limites  tempos de ceifa viriam breves e o nosso homem tornar-se-ia ceifeiro e colheria as espigas prenhes de futuro.


 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...