quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Uma Presa Sem Qualidade

 


 Atravessámos a rua. Eu bocejava de quando em quando. O polícia, embriagado pelo odor a marginal, seguia calado, erecto e besta. Atirei o fumo para a rua por entre os lábios gretados por ácidos das entranhas. Sentia espasmos harmoniosos, enquanto furávamos pelo olhar curioso dos transeuntes ávidos de violência. Nas varandas cinzentas espreitavam nuvens de olhar compreensivo.


  Irmanados pela complementaridade das vidas, cingidos pelos pulsos, avançámos sem pressas ao encontro do antro húmido e podre de uma esquadra qualquer numa cidade qualquer.


  Um cidadão atravessou a chuva quente, exibindo uma compaixão infinita que me revoltou os intestinos. Talvez fosse um poeta.


  Nas ruas, estreitas e sinuosas, espreitavam janelas e portas descoloridas. Um transístor atirou para a atmosfera balidos de político ferido, enquanto se ouviam aplausos tímidos num terceiro andar mal identificado.


  O metal rompia-me a pele insensível, a memória fazia-me cócegas, porém a imortalidade seguia-nos pelos telhados.


  Chegados ao lugar onde até os anjos sentem respeito pelas fardas, senti-o triste. Triste pela qualidade da presa.


  Fora, ponha-o fora, ouvi o sub-chefe uivar, fora por amor de Deus... mas já que cá está, diga-lhe qualquer coisa ao ouvido. 

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